Fundamentos da Educação Cristã

Capítulo 65

Lições da vida de Salomão

"Separai-vos"

Colocado à testa de uma nação que havia sido posta como luz para as nações circunvizinhas, Salomão poderia haver trazido grande glória para o Senhor do Universo por meio de uma vida de obediência Poderia haver incentivado o povo de Deus a evitar os males que eram praticados nas nações circunvizinhas. Poderia ter usado a sabedoria que Deus lhe dera e o poder de influência na organização e direção de um grande movimento missionário para iluminação dos que não conheciam a Deus e Sua verdade. Deste modo multidões teriam sido ganhas para a lealdade ao Rei dos reis.

Satanás bem sabia os resultados que se seguiriam à obediência; e durante os primeiros anos do reinado de Salomão -- anos gloriosos por causa da sabedoria, beneficência e retidão do rei -- ele procurou introduzir influências que haviam de minar insidiosamente a lealdade de Salomão aos princípios e fazê-lo separar-se de Deus. E que o inimigo foi bem-sucedido nesse esforço, sabemos pelo relato: "Salomão aparentou-se com Faraó, rei do Egito, pois tomou por mulher a filha de Faraó, e a trouxe à cidade de Davi."

Formando aliança com uma nação pagã, e selando o pacto pelo casamento com uma princesa idólatra, rejeitou Salomão temerariamente as sábias providências que Deus fizera para manter a pureza de Seu povo. A esperança de que essa esposa egípcia se convertesse não foi senão uma fraca desculpa ao pecado. Em violação de um positivo mandamento de permanecer separado de outras nações, o rei uniu sua força com o braço da carne.

Por algum tempo, em Sua compassiva misericórdia, Deus dominou esse terrível erro. A mulher de Salomão se converteu; e o rei, por uma sábia direção, poderia ter feito muito para combater as forças do mal que sua imprudência pusera em operação. Salomão começou, porém, a perder de vista a Fonte de seu poder e glória. A inclinação tomou ascendência sobre a razão. À medida que crescia sua confiança em si mesmo, ele procurou cumprir os desígnios do Senhor ao seu próprio modo. Raciocinava que alianças políticas e comerciais com as nações circunvizinhas levariam essas nações ao conhecimento do verdadeiro Deus; e entrou assim em aliança profana com nação após nação. Freqüentemente essas alianças eram seladas pelo casamento com princesas pagãs. Os mandamentos de Jeová foram postos de lado em favor dos costumes dos povos ao redor.

Durante os anos da apostasia de Salomão, o declínio espiritual de Israel foi rápido. Como poderia ter sido diferente, se o seu rei se unira com instrumentalidades satânicas? Através dessas instrumentalidades o inimigo operou para confundir a mente do povo com respeito ao verdadeiro e ao falso culto. Eles se tornaram presa fácil. O intercâmbio matrimonial com os pagãos tornou-se uma prática comum. Os israelitas depressa perderam sua repulsa pela idolatria. Adotaram-se costumes pagãos. Mães idólatras levaram seus filhos a observar ritos pagãos. A fé dos hebreus tornava-se rapidamente uma mistura de idéias confusas. O comércio com outras nações colocou os israelitas em íntimo contato com os que não tinham amor a Deus, e seu próprio amor por Ele foi grandemente diminuído. Seu agudo senso do elevado e santo caráter de Deus foi amortecido. Recusando seguir na trilha da obediência, transferiram sua vassalagem para Satanás. O inimigo regozijou-se no seu êxito em obliterar a imagem divina da mente das pessoas que Deus escolhera como Seus representantes. Por meio do intercâmbio matrimonial com os idólatras e da constante associação com eles, Satanás ocasionou aquilo pelo que estivera labutando há muito tempo -- a apostasia nacional.

Alianças contrárias às escrituras

O Senhor deseja que os Seus servos preservem seu caráter santo e peculiar. "Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos", é a Sua ordem; "porquanto, que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? ou que comunhão da luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e o Maligno? ou que união do crente com o incrédulo? Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos santuário do Deus vivente, como Ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o Meu povo. Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não toqueis em coisas impuras; e Eu vos receberei, serei vosso Pai, e vós sereis para Mim filhos e filhas, diz o Senhor todo-poderoso."

Nunca houve um tempo na história terrestre em que essa advertência fosse mais apropriada do que na atualidade. Muitos professos cristãos pensam, como Salomão, que se podem unir com os descrentes porque sua influência sobre os que se acham no erro será benéfica; mas muitas vezes eles próprios, enredados e vencidos, cedem sua fé sagrada, sacrificam os princípios e separam-se de Deus. Um passo em falso induz a outro, até que afinal eles se colocam onde não podem esperar romper as cadeias que os prendem.

Deve a juventude cristã exercer grande cuidado na formação de amizades e na escolha de companheiros. Cuidai, para que isso que agora julgais ser ouro puro, não se vos demonstre metal vil. As companhias profanas tendem a pôr empecilhos no caminho de vosso serviço a Deus, e muitas almas são arruinadas por uniões infelizes, quer em negócios quer no casamento, com os que não podem nunca elevar ou enobrecer. Os filhos de Deus não devem nunca aventurar-se a pisar terreno proibido. O casamento entre crentes e incrédulos é proibido por Deus. Mas muitas vezes o coração não convertido segue seus próprios desejos, e formam-se casamentos não sancionados por Deus. Por causa disso muitos homens e mulheres estão sem esperança e sem Deus no mundo. Suas nobres aspirações estão amortecidas; por uma cadeia de circunstâncias eles se acham detidos na rede de Satanás. Os que são governados pela paixão e pelo impulso terão amarga messe a ceifar nesta vida, e sua conduta poderá resultar na perda de sua alma.

A obra institucional

Os que são colocados à frente das instituições do Senhor necessitam muito da força, graça e poder mantenedores de Deus, a fim de que não andem contrariamente aos sagrados princípios da verdade. Muitos, muitíssimos são tardos de compreensão no tocante à sua obrigação de preservar a verdade em sua pureza, não contaminada por um só vestígio de erro. Seu perigo está em conservarem a verdade em pouca estima, deixando assim nas mentes a impressão de que pouco importa o que cremos se, ao levarmos a cabo planos de invenção humana, podemos exaltar-nos perante o mundo como detentores de uma posição superior, como ocupando o mais alto lugar.

Deus chama homens cujo coração seja tão fiel como o aço, que permaneçam firmes na integridade, intrépidos às circunstâncias. Ele chama homens que permaneçam separados dos inimigos da verdade. Chama homens que não ousarão recorrer ao braço da carne, associando-se com os mundanos a fim de conseguir meios para o avanço de Sua obra -- mesmo para a construção de instituições. Em virtude de sua aliança com incrédulos, Salomão adquiriu grande quantidade de ouro e prata; sua prosperidade, porém, tornou-se sua ruína. Os homens hoje não são mais sábios do que ele, e estão igualmente sujeitos a ceder às influências que causaram a sua derrota. Durante milhares de anos Satanás esteve adquirindo experiência na arte de enganar; e, aos que vivem nesta época, apresenta-se ele com poder quase irresistível. Nossa única segurança encontra-se na obediência à Palavra de Deus, a qual nos foi dada como guia e conselheiro infalíveis. O povo atual de Deus deve conservar-se distinto e separado do mundo, de seu espírito e de suas influências.

"Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos." Ouviremos a voz de Deus e obedeceremos, ou faremos parcialmente a obra em apreço e procuraremos servir a Deus e a Mamom? Há trabalho importante diante de cada um de nós. Pensamentos corretos, e propósitos puros e santos, não nos vêm espontaneamente. Temos que lutar por eles. Os puros e santos princípios devem lançar raízes em todas as nossas instituições, nossas casas publicadoras, colégios e sanatórios. Se as nossas instituições forem o que Deus deseja que elas sejam, os que com elas estão associados não se amoldarão às instituições mundanas. Elas permanecerão peculiares, governadas e controladas pelas normas bíblicas. Não se harmonizarão com os princípios do mundo para conseguir apoio. Motivo algum terá suficiente força para movê-las dos retos caminhos do dever. Os que estão sob o controle do Espírito de Deus não buscarão o seu próprio prazer ou divertimento. Se Cristo reinar no coração dos membros de Sua igreja, eles atenderão ao apelo: "Retirai-vos do meio deles, separai-vos". "Não sejais participantes dos seus pecados."

Deus quer que aprendamos a solene lição de que estamos decidindo nosso próprio destino. O caráter que formamos nesta vida determina se estamos ou não habilitados para viver pelos séculos eternos. Ninguém pode com segurança tentar servir a Deus e a Mamom. Deus é perfeitamente capaz de guardar-nos no mundo, mas não do mundo. Seu amor não é incerto e vacilante. Ele vigia sempre sobre Seus filhos com um cuidado que é incomensurável e eterno. Mas requer que Lhe dediquemos submissão integral. "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom."

Salomão fora dotado com maravilhosa sabedoria; mas o mundo afastou-o de Deus. Precisamos guardar nossa alma com toda a diligência, para que os cuidados e as atrações do mundo não absorvam o tempo que deve ser dedicado às coisas eternas. Assim como Deus advertiu a Salomão, também nos adverte hoje a que não ponhamos em perigo nossa alma pela afinidade com o mundo. "Retirai-vos do meio deles", pede Ele, "separai-vos...; não toqueis em coisas impuras; e Eu vos receberei, serei vosso Pai, e vós sereis para Mim filhos e filhas, diz o Senhor todo-poderoso." -- The Review and Herald, 1 de Fevereiro de 1906.